Crítica de – Thiago Cunha
Se no início do século XXI os filmes de super-heróis eram de consumo exclusivo dos árduos fãs de quadrinhos, a realidade é diferente nos dias de hoje, que até mesmo aqueles que nunca pegaram em uma HQ em toda a sua vida, consomem os longas metragens protagonizados pelos poderosos. Não é para menos: se nas décadas passadas os filmes focavam em histórias mais fiéis aos quadrinhos e com pouca identificação com o público, hoje os roteiristas têm mais liberdade de criação, trazendo seus roteiros à uma realidade mais próxima da nossa. Não à toa tivemos um filme de herói indicado e recebendo diversos prêmios no Oscar recentemente.
O ano de 2020 tinha tudo para ser marcado por uma extensa guerra cinematográfica. Filmes como o solo ‘Viúva Negra’, O inédito ´Os Eternos´, a sequência de ´Venom´ e até mesmo o início das novas fases da Marvel, dessa vez focando em séries para streaming tornavam o início da nova década um dos mais esperados aos fãs de produções como essa. Infelizmente os heróis encontraram um vilão muito mais difícil de enfrentar do que o temido Thanos: a pandemia do novo coronavírus.

O que parecia ser algo temporário e que seria resolvido em no máximo três meses transformou-se em uma situação quase impossível de ser resolvida. Adiamentos, cancelamentos e até lançamentos diretos para o streaming foram algumas das estratégias adotadas pelas grandes empresas do entretenimento. Com estreia prevista para 05 de junho, Mulher Maravilha: 1984, a sequência do filme solo da principal heroína da DC Comics parecia que não seria afetada pela doença, diferente de sua principal concorrente da Marvel, cujo lançamento era previsto para abril. A aproximação da data pensada inicialmente forçou que a Warner pensasse em uma nova data, outubro. Posteriormente, a data 24 de dezembro, véspera de Natal, foi divulgada, mas o avanço de uma segunda onda da doença em países do hemisfério norte e altos números de infectados nos Estados Unidos fez com que uma nova estratégia fosse adotada.
Em agosto, após vários adiamentos, a Disney+, streaming da empresa do rato mais famoso dos Estados Unidos, lançou na plataforma o filme ´Mulan´, uma das principais apostas para o cinema, cobrando um adicional de U$S 29 aos assinantes. Gerando bastante controvérsia, o filme foi um sucesso de assinaturas, ou pelo menos é o que os executivos falam. Seria esse o futuro do cinema? A princípio sim. Não só o filme da heroína chinesa, filmes como ´Soul´ e ´Trolls 2´ foram lançados exclusivamente para streaming. Observando a estratégia bem-sucedida, no início de dezembro a Warner anunciou que o filme da amazona seria lançado nos cinemas de todo mundo e disponibilizado simultaneamente (e sem custo adicional) aos assinantes do serviço HBO Max. Como brasileiro não tem sorte, especialmente em ano de pandemia, a Warner nacional anunciou que, uma vez que o serviço da HBO não está disponível em nosso país, o filme seria lançado nos cinemas, porém com uma semana de antecedência dos Estados Unidos.
O projeto de produzir um filme com a heroína é de longe um dos mais antigos. Desde 1996 que há um interesse em trazer a heroína para as telonas, mas as dificuldades surgiam de todos os lados, até que em 2016, acompanhando o sucesso da MCU com lançamentos do gênero, a Warner lançava o filme ‘Batman v Superman’, que além dos conhecidos personagens, trazia uma importante participação da mulher maravilha, estrelada pela atriz israelense Gal Gadot, conhecida por participações em filmes como ´Velozes e Furiozes´. A aparição da moça abria as portas para que uma prequel fosse disponibilizada nos cinemas no ano seguinte. Em cinco anos já foram lançados e anunciados seis projetos com a personagem.
Além de Gadot, o elenco conta com nomes como Chris Pine, de ´Star Trek´, Robin Wright, de ´House of Cards´ e David Thewlis, o Lupin da franquia ‘Harry Potter’. Surpreendendo por seu tom mais leve e descontraído, o longa arrecadou US$ 819 milhões por todo o mundo, sendo a metade só nos Estados Unidos. Ele também foi responsável por vermos uma total reformulação das produções seguintes, como ‘Shazam’ e ‘Aquaman’. Com o sucesso, uma sequência era mais do que esperada.

Durante a Comic-Com 2019, o primeiro trailer era anunciado, mostrando Diana Price vivendo agora nos anos 80, quase 7 décadas após da conclusão de “Mulher Maravilha”, dessa vez marcado por looks exagerados, movimentos de dança típicos da época e cenas de ação de tirar o fôlego, como aquele em que a amazona consegue laçar um raio. Mas pouca história era mostrada. Após tantos adiamentos, a Warner lançava teasers, pôsteres de divulgação e até mesmo novos trailers, onde era possível entender de forma mais clara a história.
Novamente dirigido por Patty Jenkis, o filme começa durante a infância de Diana (os três minutos iniciais foram liberados pela Warner um dia antes do lançamento do longa no Brasil), mostrando a heroína treinando em Themyscira com as demais guerreiras amazona. Após passar por uma frustração, a produção rapidamente demonstra o caminho que a história vai percorrer nos mais de 150 minutos de duração. Com isso, chegamos à década de 80, com Diana já adulta, realizando pequenos atos heroicos em Washington, mas evitando expor seu rosto. Na vida pessoal, Price trabalha em um museu local e continua em busca de alguém que faça seu coração bater mais forte, como ocorreu com o piloto Steve Trevor.
Se o primeiro filme a protagonista parecia ainda construir um relacionamento com a personagem-título, a sequência mostra que após três aparições, Gal Gadot está bem à vontade em ser a mulher maravilha que esperamos ver nos cinemas. A química entre ela e Chris Pine é de longe um dos pontos mais positivos da produção. A direção parece ter abandonado um pouco o excesso do artifício de slow motion nas cenas de ação, trazendo muito mais verdade durante as lutas, que são de tirar o fôlego. A comediante Kristen Wiig, conhecida por elencar o programa ‘Satyrday Night Live’ e ‘Ghostbusters’ chega para ser a primeira rival feminina de Diana, a Mulher-Leopardo. Ao lado de Pedro Pascal, que aqui interpreta o personagem Maxwell Lord, os dois formam uma das melhores escolhas da produção. Wiig consegue interpretar três diferentes nuances da personagem, enquanto Pascal convence como o ambicioso empresário com ideias megalomaníacas.
Porém, a produção apresenta algumas fragilidades ao longo de sua exibição. Se em ‘Mulher Maravilha’ um coração partido é o suficiente para que a amazona enfrentasse de igual para igual o deus grego da guerra, aqui, onde o desafio aparentemente é mais fácil de enfrentas, os poderes da heroína parecem não ser o suficiente. O roteiro simples, que acaba se tornando um ponto positivo, muitas vezes é simplório e há excessivamente o artifício god ex machina, onde situações e resoluções parecem cair do céu para auxiliar os personagens.

Para os que vão assistir ao filme no cinema, não se esqueçam de usar máscaras de proteção individual o tempo inteiro, higienizar constantemente as mãos, especialmente se forem consumir alimento e comprar os ingressos com antecedência. Isso auxilia na escolha dos melhores lugares e de um distanciamento mais
Trailer DUBLADO
Divertido, leve e recheado de referência aos quadrinhos, ‘Mulher Maravilha: 1984’ surge como uma produção que justifica uma reabertura das salas de cinema, que até então exibiam reprises, filmes menores e longas questionáveis, como o último ‘Novos Mutantes’, da Fox. A decisão de exibir simultaneamente na plataforma HBO Max também é uma excelente estratégia, uma vez que o filme tem grande potencial para reunir toda a família na véspera de Natal para acompanhar a história após um ano marcado pelo medo, incerteza e perdas. Para os fãs fervorosos, tem uma cena depois dos créditos iniciais, que vai fazer muita gente dar um sorriso de lado pela audácia da produção.