No dia 20 de março, a Walt Disney lançou nos cinemas sua mais recente adaptação live-action: Branca de Neve, baseada no clássico de 1937. No entanto, a recepção tem sido morna. Além de uma estreia abaixo das expectativas, o filme enfrenta desinteresse do público, que parece saturado com as reciclagens de animações icônicas.
Enquanto Aladdin, A Bela e a Fera e O Rei Leão ultrapassaram a marca de US 1 bilhão nas bilheterias, produções recentes têm dificuldade para cobrir seus altos orçamentos – geralmente acima de US 200 milhões. Alguns títulos, porém, ganham fôlego após o lançamento no streaming. Foi o caso de Mufasa: O Rei Leão, prequel que teve uma estreia fraca, mas recuperou-se e arrecadou US$ 800 milhões globalmente. Desde que chegou ao Disney+, o filme figura entre os mais assistidos da plataforma.

Além da fadiga de remakes: as polêmicas de “Branca de Neve”
O problema do filme, porém, vai além do cansaço do público. Desde o anúncio, a produção foi envolvida em controvérsias. Logo no início, o ator Peter Dinklage (Game of Thrones) criticou publicamente a decisão da Disney de refazer a história, argumentando que o live-action perpetuaria estereótipos prejudiciais sobre pessoas com nanismo — já que os sete anões do original eram retratados de forma caricata. A declaração foi tão impactante que o estúdio reformulou os personagens: Mestre, Atchim e os outros moradores da floresta foram transformados em criaturas mágicas feitas em CGI, eliminando qualquer associação com anões.
A escolha de Rachel Zegler (Jogos Vorazes: A Cantiga dos Pássaros e da Serpente) para viver a protagonista gerou novos debates, principalmente após a atriz declarar que sua versão da personagem “não ficaria esperando por um príncipe” — uma aparente crítica ao conto original. Sua coestrela, Gal Gadot (a Rainha Má), endossou as falas, alimentando a discussão.
A escalação de Zegler também foi alvo de críticas, com internautas questionando sua falta de semelhança física com a Branca de Neve clássica e acusando o estúdio de priorizar agendas em detrimento da fidelidade à obra. Se, por um lado, Halle Bailey (A Pequena Sereia) enfrentou ataques racistas em silêncio, Zegler optou por rebater os haters publicamente.
O conflito entre as estrelas e a sombra da guerra
A tensão entre Zegler e Gadot extrapolou as telas. Enquanto Gadot, israelense, manifesta apoio a Israel em meio ao conflito com o Hamas, Zegler usou suas redes sociais para postar #FreePalestine em resposta a um vídeo promocional do filme. A mensagem foi interpretada como uma provocação à colega de elenco.
O clima entre as duas ficou ainda mais evidente durante o Oscar, quando apresentaram juntas o prêmio de Melhores Efeitos Visuais — com interações claramente desconfortáveis. Rumores sugerem que a Disney cancelou eventos de promoção do filme para evitar perguntas incômodas que pudessem prejudicar ainda mais sua estreia.

Um filme que não salva nem pela qualidade
Diante de tantas polêmicas, Branca de Neve precisaria ser excepcional para se sustentar. Não é o caso. O longa é insosso, pouco inventivo e esqueçível. Zegler, apesar do comportamento controverso, entrega uma das poucas atuações dignas de nota. Já Gadot, embora fisicamente adequada ao papel, interpreta a Rainha Má sem a presença marcante da vilã original. A cena em que ela se transforma em bruxa, antes arrepiante no desenho animado, aqui é entediante.
A Disney e a dependência de franquias
Enquanto investe em live-actions questionáveis, a Disney parece negligenciar seu verdadeiro diferencial: as animações. Moana, Encanto e até os recentes lançamentos da Pixar provam que o estúdio ainda sabe contar histórias originais quando quer. No entanto, a busca por bilheterias fáceis tem sufocado a criatividade.
Desde o retorno de Bob Iger como CEO, uma enxurrada de sequências foi anunciada: Moana 2, Zootopia 2, Os Incríveis 3, Toy Story 5 e até Viva: Viver é Uma Festa 2. A estratégia de apostar em franquias consagradas pode garantir retorno financeiro, mas, sem cuidado narrativo, dificilmente repetirá o sucesso dos originais.
A Walt Disney Studios enfrenta uma crise criativa que tem prejudicado sua conexão com o público. Se confirmados os live-actions de Enrolados, Hércules e outros já planejados, a empresa precisará rever sua abordagem — ou continuará a colher fracassos. Enquanto isso, Branca de Neve serve como mais um exemplo de um projeto que, entre polêmicas e falta de originalidade, falha em justificar sua própria existência.