O nome de Michael Keaton está em alta desde Birdman (2014), filme indicado a quatro Oscar, onde atuou. Mas é com a presença do Batman (o mesmo de 1989, obviamente mais velho) no filme The Flash que os holofotes se viraram para o ator.
Entretanto, nem só de filmes de super-heróis vive Keaton (também presente em Morbius, da Marvel). A prova disso está no interessante longa-metragem Fome de Poder (The Founder), obra do ano de 2016.
O filme é a reconstituição dos passos de Ray Kroc (Michael Keaton), o homem por trás da explosão de uma rede de fast-food muito conhecida no mundo todo: o McDonald´s.
Baseado em uma história real?
Verdade seja dita, Fome de Poder vai além do “baseado”. A narrativa é fiel (até demais) aos bastidores da criação e evolução do McDonald’s, a bilionária rede de fast-food que está em quase todos os cantos do mundo.
Claro, nem tudo foi sempre assim. Há uma origem humilde e uma história inacreditável por trás desse grandioso sucesso. Também há a parte podre desse conto de fadas, já que a dita persistência de Ray era, em grande parte, seguida de uma absoluta resignação em obter o sucesso a todo custo, inclusive atropelando a concorrência e desvencilhando-se de valores morais que o impediriam de chegar ao patamar almejado.

Em suma, Ray Kroc era um tubarão dos negócios, um homem que traçou um objetivo e foi removendo obstáculo por obstáculo, até mesmo aqueles que ele amava.
A trama traz pontos interessantes e pesados sobre a conduta de Ray e como ele ascendeu de forma meteórica após tanto tempo à sombra do fracasso.
É tudo 100% verdade no filme? Honestamente, acho difícil. Isso, contudo, não impediu o roteirista de incluir o máximo de realidade para destacar que algumas pessoas são bem sucedidas por conta de suas atitudes, mesmo que algumas delas sejam questionáveis ou até imorais.
Um pouco de História…
Raymond Alexander Kroc foi um empresário e vendedor. O filme o retrata, inicialmente, como um vendedor de mixers, os aparelhos destinados a mexer o leite e transformá-lo em milk shake. É em uma dessas vendas que Ray conhece os proprietários da lanchonete McDonald’s. Mais do que conhecê-los, ele percebe que a metodologia de vendas e trabalhos deles é diferenciada.
Por meio de sua visão, Ray vê a possibilidade de expansão daquilo que o McDonald’s era na época. Em contrapartida, os instintos dos donos Dick McDonald (Nick Offerman) e Mac McDonald (John Carroll Lynch) sempre os levaram a desconfiar de toda e qualquer novidade, além de serem extremamente burocráticos nas decisões sobre o empreendimento. Isso, óbvio, se dá após Ray se associar aos irmãos e, gradualmente, assumir o controle sobre algo que não é dele, o que não o impede de avançar no poder sobre a franquia.

Mas essa “invasão” de Ray Kroc era proveniente da maldade ou ele era apenas um empresário agressivo, um homem que não queria perder a única oportunidade de sucesso de sua vida?
Ame-o ou deixe-o.
Essa era a verdade sobre Ray Kroc. O homem era astuto (fato mostrado através de suas conversas como vendedor) e incansável na luta pelo sucesso. Sua obsessão por vencer na vida o mudou, gradualmente, em um homem capaz de tudo para chegar ao objetivo, até mesmo magoar amigos e pessoas que amava. Para ser muito sincero, a verdade é que algumas pessoas deixam seu verdadeiro “eu” ser libertado na primeira oportunidade que tiverem.
Mas havia pontos positivos neste empreendedor. Ele apostou, literalmente, tudo no sucesso do McDonald’s. Ele chegou à beira do abismo para que a ideia da franquia não desse errado. Ele, aliás, avisou e pediu o suporte dos donos da marca para que autorizassem pequenas mudanças que alavancariam as vendas, o que não ocorreu por causa do estilo conservador da dupla.
Logo, tecer opiniões sobre um homem que caminhava no fio da faca é, no mínimo, um prejulgamento, já que a situação – ao longo do tempo – ganhou complicações inesperadas para Ray e os irmãos McDonald.
Apesar do indiscutível sucesso da franquia, um certo rastro de traição, covardia e falta de escrúpulos marcou a ascensão de Ray no ramo da alimentação. Agora, cabe à História dizer se ele estava certo ou errado. Como já disse, não farei julgamentos de alguém que via nessa empreitada a sua última chance de ser alguém na vida. E você, faria algo diferente se estivesse no lugar dele?
Para uns, um gênio. Para outros, um homem que desprezou amizades e até o amor de uma esposa para alcançar a riqueza e o sucesso com que sempre sonhou.

Reconstituição fiel.
Debates morais à parte, Fome de Poder tem um ponto de indiscutível qualidade: a reconstituição de uma época infinitamente diferente da que hoje vivemos.
A fidelidade ao vestuário, carros e até no que diz respeito ao comportamento da época (o filme inicia em 1955) está condizente com o historicamente correto. Eram outros tempos onde a simplicidade gradualmente dava lugar a uma vida mais prática e provida dos benefícios do avanço tecnológico, inclusive na indústria alimentícia.
Achei interessante a forma como retrataram as preocupações de Ray no que diz respeito ao tempo de entrega dos lanches e até sobre a presença de jovens baderneiros como fator de afastamento do público (familiar). A ideia original do McDonald’s era agilizar a entrega dos alimentos para que o local não fosse um ponto de permanência de arruaceiros, algo normal naqueles tempos.

A reconstituição das lojas franqueadas (com os arcos dourados) foi primorosa. Desde equipamentos até o uniforme dos atendentes estava perfeitamente de acordo com as fotos e relatos da época.
Mas são as atitudes e o comportamento de Ray, sua visão como empreendedor e a literal “fome de poder” que estão retratadas de forma excepcional.
Confiança.
Um dos mais valiosos atributos em qualquer situação de nossa vida é a confiança. Isso está explícito no filme, tal qual também é mostrado o potencial destrutivo quando entregamos nossa confiança a alguém de forma incondicional.
Na verdade, havia condições que, infelizmente para uns e felizmente para outros, não foram seguidas à risca. A busca incansável pelo sucesso transformou amizade em desconfiança e parceria em traição. Novamente, porém, vou me esquivar de tecer juízos de valor, sobretudo quando posso ver as duas faces da moeda.
Aquele que tiver coragem, julgue.

Seja como for, Fome de Poder é uma obra indispensável para quem deseja conhecer mais sobre empreendedorismo, para quem busca um pouco de História e até mesmo como entretenimento puro. Entretanto, goste você da trajetória de Ray Kroc ou a odeie, o fato é que há incontáveis lições em sua vida, carreira, vida familiar e escolhas. Em suma, uma obra da Sétima Arte que precisa ser vista.