Não adianta debater: o público e a crítica (em sua maioria) massacraram o filme antecessor do Esquadrão Suicida, assim como o fizeram com
Aves de Rapina: Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa. Eu, honestamente, curti o primeiro Esquadrão, porém não gostei de Aves de Rapina.
Raciocinem comigo. Um filme que tem praticamente o mesmo título de um longa que não foi bem recebido e que conta com a presença de uma personagem carismática cujos dois filmes anteriores dividiram opinião com relação à sua participação é, em suma, uma verdadeira aposta no escuro. Claro que estou falando do novíssimo “O Esquadrão Suicida“, uma das mais ousadas apostas da Warner e que conta com a direção e o roteiro do genial James Gunn (Guardiões da Galáxia).

E do que se trata?
Bem, essa é uma pergunta de fácil resposta: entreter. A trama de O Esquadrão Suicida não se preocupa com o carinho dos fãs por determinada personagem, tem humor negro em altas doses, violência sem limites, diálogos ácidos e, em uma análise mais concisa, é uma versão mais sangrenta de Game of Thrones, tudo isso com muita inteligência, cabe ressaltar.
Claro que a trama aborda temos recorrentes de outros filmes de ação, como a invasão de um território estrangeiro, o massacre de soldados desse país, a existência de uma “arma suprema”, o ódio aos EUA, mercenários, super (heróis) vilões, uma população local indefesa, espionagem, etc. Há muito mais, não tenham dúvidas, porém isso só se torna pertinente por causa do uso correto de cada uma das personagens e da história que “bebe” na fonte dos quadrinhos e respeita os anseios dos seus fãs ao entregar um filme diferente de tudo aquilo que já havíamos visto nos filmes anteriores da parceria DC/Warner.
Game of Thrones
Já adianto – sem spoilers – que essa obra é um banho de sangue ininterrupto. Isso, entretanto, não é um fator negativo, já que o contexto das cenas e as mortes servem para destacar que a trama é mais alucinada que a anterior e serve para destacar não apenas o nível de manipulação da famigerada Amanda Waller (Viola Davis retorna ao papel) como, ainda, a possibilidade de morte daqueles que são poderosos ao extremos e, claro, mortais.
Permitir que esses indivíduos sejam assassinados – das formas mais variadas – é um meio válido para distanciar o público daquela impressão que alguns filmes de “super-heróis” deixam, isto é, a de que nada ali é real, já que todos saem quase intocados após explosões, tiroteios, destruições de prédios, tsunamis e seja lá o que vier à sua mente.

James Gunn foi extremamente inteligente ao entregar um longa-metragem onde o humor negro, o sarcasmo e a crítica estão presentes em doses massivas. Cada morte é pensada de forma a destacar que, no fundo, vilões e heróis são apenas humanos, indivíduos sujeitos ao medo, raiva, impulsividade e outras características que os afastam da aura de divindade existente na maioria das personagens das HQ.
Outro ponto alto está no aproveitamento de um elenco grande, repleto de estrelas. Com sua sagacidade, Gunn trouxe à tona personagens do primeiro filme (não todos, vocês verão) e soube como removê-los do contexto. Ele também soube inserir coadjuvantes que poderiam ser mais aprofundados, porém é válido destacar que o foco da trama está na atuação e cooperação de membros de uma equipe composta – em sua essência – por assassinos e loucos.
Efeitos visuais.
Para os que estão preocupados com o efeito “bigode do Superman”, posso garantir que a produção deste filme caprichou e nos entregou uma obra feita com muito cuidado e com os melhores recursos tecnológicos possíveis. Neste contexto, os destaques ficam por conta de King Shark (com a voz de Sylvester Stallone), a presença da monstruosa estrela Starro e da mãe do Bolinhas (David Dastmalchian).
Personagens
Apesar da saída de Will Smith (Pistoleiro) que esteve no primeiro filme, James Gunn optou por trazer alguns elementos desta versão. Entre eles estão Arlequina (Margot Robbie), Coronel Rick Flagg (Joel Kinnaman), a já citada Amanda Waller e o Capitão Bumerangue (Jai Courtney). Dentre estes, certamente o destaque é a Arlequina (que ganhou mais loucura e força, contrariando o que vimos em Aves de Rapina), mas Flagg e Waller estão condizentes com o que o espectador provavelmente espera.

Os demais são absolutamente novidades. Lembro, entretanto, que ser uma novidade não é garantia de longevidade no filme.
A brasileira Alice Braga está no elenco, ainda que sua participação não seja marcante.
No quesito “carisma”, destaco a personagem Caça-Ratos 2 (Daniel Melchior) e seu ratinho, King Shark (Stallone), Bolinhas (Dastmalchian) e Doninha (Sean Gunn). Para os que questionaram a presença de Idris Elba (Sanguinário) e de John Cena (Pacificador), podem ficar despreocupados, pois eles garantem alguns dos momentos de ação mais legais do filme.
Starro e a transformação de
um coadjuvante esquecido.
O Esquadrão Suicida tem um dos mais improváveis vilões: uma estrela espacial que domina as mentes de quem ela infecta. Starro é o nome dessa criatura que já esteve presente em várias tramas da DC nos quadrinhos, sendo sua primeira aparição no distante ano de 1960 na revista The Brave and the Bold #28. Nesta HQ, o vilão foi o inimigo da iniciante Liga da Justiça.
Neste longa, Starro ganha ares de um Kaiju (monstro gigante japonês) que destrói tudo ao seu redor, esmaga pessoas e torna muitas em escravas. Contrariando o que já foi visto nas HQ, essa versão de Starro produz esporos que dominam mentalmente suas vítimas, mas estas morrem caso os esporos sejam removidos. Uma das cenas do filme nos dá uma visão clara do estrago feito por essas versões menores do vilão.

James Gunn optou por modificar Starro e conferir a ele uma aura de malignidade que o distanciaria da versão quase cômica daquela vista em sua origem. Os esporos liberados pelo monstro causam um estrago quase tão devastador quanto ao dos facehugger de Alien, acrescido do fato de que os humanos infectados se tornam “zumbis” de Starro e sofrem com quaisquer danos provocados a ele.
Latinos contra estadunidenses.
Como uma crítica direta à política de isolamento adotada nos EUA e ao trato recebido por parte dos latino-americanos, o filme destaca a luta do povo da ilha de Corto Maltese, um país fictício que existe em algumas publicações da DC, localizada em alguma área da América do Sul. Entre as personagens que já estiveram por lá posso citar o Flash e Fuerza, heroína local.
No longa é possível perceber que houve um golpe para derrubar o poder local. Há uma resistência armada que não quer o avanço do poder paralelo, representado pelo presidente Silvio Luna (Juan Diego Botto), já que o trato à população não mudou nada com a troca de comando no país. Silvio Luna e Arlequina marcam a passagem mais “romântica” da obra, culminando em uma demonstração do poder de destruição da ex-namorada do Coringa.
A instalação onde o monstro está aprisionado lembra muito uma usina nuclear. Na verdade, o poder de destruição de Starro é uma alusão aos perigos de forças – tais como a energia nuclear – manipuladas por pessoas despreocupadas com aqueles que estão ao redor do lugar (alguém se lembrou de Chernobil?) ou com fins escusos (algumas das potências atômicas).
O sentimento antiamericano é uma forma de destacar – segundo minha visão – a loucura de alguns regimes de governo pelo mundo que insistem em culpar os EUA por tudo de ruim que acontece nestes países. Entretano, James Gunn destaca o nível de crueldade e loucura do governante de Corto Maltese (e de parte da população) que enxergam na Arlequina um símbolo da “resistência” contra os imperialistas americanos.
Claro que o roteiro de Gunn bebe em fontes da Sétima Arte nas quais os países latinos são vistos como republiquetas ou áreas de selva. Não há preconceito ou rancor contra os latinos, apenas uma crítica direta ao próprio cinema que foi usado como forma de estereotipar essas populações. Genial jogada do diretor…
Vilões?
Não há dúvidas sobre a loucura de boa parte dos integrantes do Esquadrão Suicida, porém ficamos a questionar se os mesmos são tão ruins quanto suas fichas criminais.
Ao longo do filme várias nuances de suas personalidades e trajetórias mostram que há algo de humano até mesmo quando se trata de vilões responsáveis por crimes dos mais bárbaros. Eu não vi isso como uma amenização dos crimes e dos atos de assassinos, apenas enxergo isso como uma forma de destacar que todos os males vêm dos humanos, mas que mesmo estes seres podem demonstrar compaixão por outros seres humanos.

Como já vimos no filme anterior, o mais perigoso vilão ainda é a cruel e manipuladora Amanda Waller, a mulher que representa e incorpora a malignidade dos burocratas e políticos que manipulam o mundo e governam nações por trás de suas mesas e no conforto de seus escritórios.
Nota final.
O Esquadrão Suicida (The Suicide Squad) já figura entre os seis melhores filmes da DC (ao lado de Zack Snyder’s Justice League, Joker, Mulher-Maravilha, Watchmen e O Cavaleiro das Trevas).
Humor inteligente, trama muito bem amarrada, efeitos visuais impecáveis, atuações memoráveis (algumas, para falar a verdade, bem rápidas), a recuperação da personagem Arlequina, um enredo corajoso e à altura das HQ, além da possibilidade deixada de termos novas obras com uma equipe que marcou por ser divertida e complexa como jamais havíamos visto.
